São Paulo aparece oficialmente como o estado menos violento do Brasil em 2024, mas também lidera o ranking nacional de “homicídios ocultos”, segundo dados do Atlas da Violência 2026 divulgados nesta terça-feira (26). As informações foram publicadas pelo Correio Braziliense.
O levantamento foi produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e revela que a taxa oficial de homicídios em São Paulo foi de 6,6 mortes por 100 mil habitantes — a menor do país.
No entanto, quando entram na conta os chamados homicídios ocultos, a taxa de assassinatos em São Paulo praticamente dobra, chegando a 12,8 homicídios por 100 mil habitantes.
O que são homicídios ocultos?
Os homicídios ocultos são mortes violentas registradas como “causa indeterminada” no Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde.
Na prática, isso significa que a vítima morreu de forma violenta, mas sem definição oficial se a causa foi homicídio, suicídio ou acidente.
Segundo o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, o problema pode ocorrer por:
- falhas de investigação;
- ausência de informações periciais;
- demora na conclusão de laudos;
- problemas de comunicação entre órgãos públicos.
O Atlas da Violência utiliza inteligência artificial e aprendizado de máquina para estimar quantas dessas mortes provavelmente foram assassinatos.
O sistema cruza dados históricos de violência desde 1996 e analisa fatores como:
- idade da vítima;
- sexo;
- escolaridade;
- cidade;
- horário da morte;
- tipo de arma utilizada;
- local da ocorrência.
São Paulo concentra quase 40% dos homicídios ocultos do Brasil
O Atlas da Violência 2026 aponta que o Brasil registrou 7.083 homicídios ocultos em 2024.
Desse total, 2.824 ocorreram em São Paulo, o equivalente a quase 40% dos casos registrados no país.
Além disso, o estado registrou 5.844 Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), representando 34% do total nacional.
Segundo os pesquisadores, São Paulo lidera o ranking de homicídios ocultos desde o início da série histórica do Atlas da Violência, em 2014.
Com os homicídios ocultos incluídos no cálculo, São Paulo deixa de ocupar a primeira posição entre os estados menos violentos do Brasil e cai para o terceiro lugar, atrás de Santa Catarina e do Distrito Federal.
Governo de São Paulo rebate dados do Atlas da Violência
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo contestou a metodologia utilizada pelo estudo.
Segundo a pasta, os dados do levantamento possuem natureza sanitária e não criminológica, o que impediria comparações diretas com os registros oficiais da segurança pública paulista.
Os pesquisadores do Ipea discordam da crítica e afirmam que o crescimento das mortes violentas sem esclarecimento compromete a compreensão real da violência no país.
Daniel Cerqueira afirmou que considera “um mistério” o fato de São Paulo registrar números tão altos de mortes violentas sem definição clara, mesmo sendo o estado mais rico do Brasil.
Atlas da Violência alerta para “ponto cego” nas estatísticas de homicídios
Apesar da queda nacional da violência letal, o Atlas da Violência faz um alerta sobre a piora da qualidade das estatísticas oficiais.
O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o equivalente a uma taxa de 20,1 assassinatos por 100 mil habitantes — o menor índice da série histórica.
Por outro lado, as Mortes Violentas por Causa Indeterminada cresceram 88,6% em apenas um ano.
Segundo os autores do estudo, isso pode criar um “ponto cego estatístico”, dificultando:
- o planejamento de políticas públicas;
- a investigação criminal;
- o monitoramento da violência;
- a avaliação de ações de segurança pública.
Estados mais violentos do Brasil em 2024
Segundo o Atlas da Violência 2026, os estados com maiores taxas de homicídio no Brasil foram:
- Amapá — 45,7 homicídios por 100 mil habitantes
- Bahia — 40,9
- Pernambuco — 37,3
- Alagoas — 35,9
- Ceará — 34,3
Os pesquisadores associam os altos índices à disputa entre facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas e conflitos territoriais.
Cidades mais violentas do Brasil
O estudo também aponta que as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes e maiores taxas de homicídios estão concentradas principalmente na Bahia e no Ceará.
Maranguape aparece como a cidade mais violenta do país, seguida por municípios como:
- Jequié (BA);
- Maracanaú (CE);
- Caucaia (CE);
- Feira de Santana (BA);
- Porto Seguro (BA).
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